| Gentileza demais cansa
Se você tende a discordar
do que eu digo porque acha que gentileza nunca é demais, lembre-se
daquela senhora, provavelmente mãe de algum amigo de infância,
que não apenas insistia para que você comesse mais um pouquinho,
como também enchia o seu prato com um montão de mais um pouquinhos,
a despeito dos seus protestos. Ou daquele garçom que a cada 3 minutos
vem à sua mesa perguntar se está tudo bem, sem se dar conta
de que está interrompendo a conversa. Ou daquela vendedora que se
apresenta, pergunta o seu nome e vai seguindo você pela loja na maior
intimidade, mostrando tudo o que está em promoção
e dizendo o quanto cada ítem vai facilitar a sua vida.
Sim, o mundo está
cheio de chatos e isso todos estamos cansados de saber. Difícil
é assumir que quase metade dessa chatice toda está com raízes
bem fincadas na gentileza e na boa vontade. E aí vem a pior parte:
se escapar de um chato simples já é tarefa complicada, escapar
de um chato gentil e bem intencionado chega a ser impossível. Ou
você responderia mal para a mãe daquele seu amigo?
Vira e mexe, sou atendida
por um motorista de táxi que nem sabe qual é a minha profissão,
mas faz questão de me chamar de doutora e de passar cerca de 15
quilômetros dizendo o quanto eu sou batalhadora e me perguntando
o que é que eu, na qualidade de mulher de negócios experiente
e preparada, penso sobre determinado assunto. Bem, a saída que encontrei
foi dizer que estou muito cansada e pedir licença para cochilar
um pouco durante o trajeto. Funcionou duas ou três vezes. Até
o dia em que entrei no carro, abri a boca e o homem já foi interrompendo:
"Eu sei que a doutora teve um dia difícil, então vou colocar
música para a senhora relaxar, pois não?". Eu sabia que,
de alguma forma, viria bomba. Pois veio. Daquele dia em diante, independentemente
do mês em que estejamos, sempre que ele é o primeiro da fila
eu sou obrigada a ir para casa ouvindo a mesma fita de Natal. Enfim, antes
isso do que ser surda.
"Antes isso do que ter que
agüentar a mais completa falta de cortesia", muitos dirão.
E aí eu fico tentando imaginar qual seriam os limites da cortesia.
Não consegui, até hoje, chegar a uma conclusão satisfatória.
Mas tenho certeza de que a linha que separa a gentileza da falta de gentileza
é tão tênue quanto aquelas que separam o chique do
brega, o educado do mal educado, o gentil do chato de galocha (ou sem galocha).
"Como foi sua cirurgia?",
por exemplo, é uma pergunta educada. Mas se ela vier acompanhada
por um "E você pretende diminuir a barriga, também?" pronto:
já virou falta de educação. Sim, é preciso
saber que, muitas vezes, a boa educação demanda um pouco
de falta de memória. Sobre isso, o embaixador norte-americano Kenneth
Keating disse, uma vez, que diplomacia é lembrar a data de aniversário
de uma mulher, mas esquecer a idade dela.
De uns tempos pra cá,
para evitar o trânsito infernal e um conseqüente rombo na carteira,
voltei a tomar ônibus de casa para o escritório e do escritório
para casa. Foi aí que descobri que o excesso de gentileza pode ser,
também, um importante fator de stress. Vamos aos fatos: um dos pontos
que uso habitualmente fica perto de uma curva, e o outro fica perto de
uma esquina. Muitas e muitas vezes, os ônibus fazem a curva (ou viram
a esquina) e o que eu vejo estampado no letreiro é aquele "Bom dia!"
(ou "Boa tarde!", ou "Boa noite!") que se alterna com o nome e o número
da linha. Só que a gentileza do ônibus em me cumprimentar
é tamanha que, muitas vezes, nem dá tempo de descobrir se
era o meu ou não.
Minhas duas avós já
diziam que de boas intenções o inferno está cheio.
E eu completo dizendo que a minha paciência também. E, por
mais que eu deteste este bordão, aqui ele cai como uma luva: ninguém
merece.
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