Sintomas indiscutíveis
Eu não sei dirigir.
Nunca tive vontade de aprender e confesso que não sinto a menor
falta. Até porque o serviço de taxi apareceu na face da Terra
bem antes de mim.
Eu nunca sonhei com vestido
de noiva ou cerimônia de casamento. Ah! E também nunca tive
vontade de ser mãe: eu sempre tive a sensação de que
nasci para ser tia. E daquelas bem chatas.
Eu não gosto de comer
pizza na hora do almoço e nem sanduíche nas refeições.
E o que é pior: eu nunca gostei daquele que tem dois hambúrgueres,
alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim.
Eu não gosto de cinema
de arte e detesto ficar discutindo a mensagem de um filme, depois. Pra
falar a verdade, eu gosto mesmo é de uma bela comediazinha romântica,
no melhor estilo sessão da tarde. E não me sinto nem um pouco
desconfortável ou culpada por isso.
Eu adoro fazer piquenique
na cama, por mais inadequado e anti-higiênico que isso possa parecer.
Eu compro mais livros do
que consigo ler, e sempre que olho para a estante me sinto em dívida
com eles.
Antigamente, eu gostava mais
dos intervalos comerciais do que da programação da TV. Hoje
em dia não gosto de nenhum dos dois.
Eu não dou a menor
bola para o que está ou não está na moda, e praticamente
todas as minhas roupas são da mesma cor.
Eu não gosto de carnaval.
E também não gosto de pagode, de axé, de forró,
de lambada e muito menos de funk music. Essa última, na verdade,
eu detesto.
Eu me sinto muito melhor
trabalhando de noite do que de dia.
Eu não como peixe
de espécie alguma.
Eu sempre saio de uma loja
quando algum vendedor se aproxima perguntando se procuro "algo especial"
ou se "é para a senhora ou para presente?".
Eu não gosto da pintura
de Portinari e nem da arquitetura de Niemeyer.
Eu adoro vinho que tem gosto
de uva.
Eu sei fazer tricô,
crochê e tapetes em tear manual, mas não faço nada
disso.
Será, doutor, que
é por causa dessas coisas que eu sempre páro diante de placas
que proibem a entrada de pessoas estranhas?
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