| Reflexão eólica
Eu moro numa casa. Anos atrás,
construíram um lindo edifício residencial duas ou três
casas pra lá. Nenhuma das minhas janelas dá para o edifício,
e portanto não me sinto invadida. O edifício não tampou
o meu sol, e por isso não me sinto prejudicada. Na verdade, o edifício
jamais me incomodou em nada. A não ser naquele carnaval em que um
de seus moradores viajou sem desligar o despertador, e o miserável
começou a tocar em pleno sábado, às seis e meia da
manhã. É claro que se tratava de um moderníssimo despertador
eletrônico, daqueles que começam tocando baixinho e o som
vai crescendo devagar. Daqueles, cujo toque vai mudando para não
enjoar dorminhoco nenhum. Daqueles, que nunca desistem até que alguém
aperte o botão certo ou os tire da tomada.
Pois eu nem imaginava que
existisse despertador assim até aquele fatídico sábado
de carnaval, que deu início a dois longos dias de tu-tu-tu-tu-tu,
prrréééééimmmmmmmmm, uó, úo,
úo, úo, úo e outros quetais. Foi justamente por isso
que, naquele sábado fatídico, decidi investigar os incríveis
fenômenos da física que trazem certos sons do edifício
para dentro da minha casa.
Subi no telhado, olhei, virei,
mexi, medi e calculei mas, como nunca consegui entender qualquer coisa
de física em toda minha vida, concluí que o som bate na parede
do vizinho do outro lado e vem parar aqui.
Foi só no terceiro
dia de carnaval que alguém teve a feliz idéia de cortar a
energia do tal apartamento e, finalmente, o despertador silenciou trazendo
a paz, uma geladeira quente, um freezer degelado e um videocassete devidamente
desprogramado, para regozijo de toda a vizinhança. Pelo que eu soube,
nunca mais se tocou nesse assunto, nem em reunião de condomínio.
E, depois disso, nada mais que veio do edifício conseguiu me atrapalhar.
Nem as festas, porque eu adoro festas. Nem a música, porque eu adoro
música. Nem o falatório, porque eu também adoro falar.
Nem os gritos e fogos pra comemorar os gols do Corinthians, porque eu sou
corinthiana roxa. E o sossego durou até um dia desses, quando alguém
que eu nem sei quem é decidiu pendurar sininhos de vento num terraço
do quinto ou sexto andar.
Tililim, tililim, tililim...
tililim, tililim, tililim. Tililim, tililim, tililim!
Desde então, todos
os dias eu me levanto ao som de tililim tililim, tomo banho ao som de tililim
tililim, cozinho ao som de tililim tililim, falo ao telefone ao som de
tililim tililim, assisto televisão ao som de tililim tililim, leio
ao som de tililim tililim, durmo ao som de tililim tililim e até
acordo de madrugada por causa do tililim, sempre que bate um ventinho mais
forte.
E ainda me perguntam por
que é que eu ando tão irritada, ultimamente.
Muitos anos atrás,
quando comecei a ver sininhos de vento por aí, as pessoas eram infinitamente
mais bem educadas e costumavam pendurá-los atrás da porta
da sala. Dessa forma, o tililim afastava o mau olhado e os maus espíritos
que eventualmente vêm com as visitas, sem incomodar a vizinhança.
Mas parece que as visitas do meu vizinho entram pelo terraço do
quinto ou sexto andar. De outro modo, o que justificaria colocar os sininhos
bem ali?
Suponho que ele poderia ter
apelado para vasinhos de pimenta, arruda, alecrim ou espada de São
Jorge, que além de poderosos e decorativos são muito silenciosos.
Suponho, ainda, que poderia ter inundando seu terraço com litros
de água do mar, quilos de sal grosso e sacos de conchinhas, o que
garantiria os bons fluidos e não perturbaria ninguém, salvo
em caso de vazamento.
Mas não: ele precisou
escolher o método menos indicado e pendurou os sininhos no terraço.
Tililim, tililim, tililim... tililim, tililim, tililim. Tililim, tililim,
tililim! E eu, como sou uma pessoa energeticamente bem equilibrada, que
preza a paz na Terra e a harmonia entre os povos, depois de procurar (e
não encontrar) forma viável de interromper a passagem de
vento ou a entrada de visitas pelo terraço alheio, concluí
que só me resta uma alternativa: descobrir quem é essa pessoa
de boa vontade, tocar sua campainha e pedir, educadamente, que ela enfie
os seus sininhos de vento em outro lugar. Isso é tudo o que, neste
momento, eu consigo chamar de ponto pacífico. Pode apostar.
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