| A destruidora de lares
Quem olha para aquela loira
redondinha, que mal chega a ter um metro e meio de altura, não consegue
imaginar do quê ela é capaz. Eu mesma, se a visse de passagem
pela rua, apostaria que se trata apenas de mais uma pacata mãe de
família. Uma pré-quarentona simpática e falante, como
tantas e tantas outras que a gente encontra por aí. Na verdade,
só descobri tudo sobre ela porque, há alguns anos, a talzinha
dá expediente lá em casa. Ou no que restou dela.
Chegou com as melhores referências,
para fazer faxina uma vez por semana. Logo me convenceu de que, se viesse
dois dias, deixaria a roupa em ordem também. Daí a se transformar
em mensalista foi um pulo. E foi nesse pulo que a minha vida se transformou
em uma sucessão de surpresas. Surpresas essas que só não
são maiores e mais desagradáveis porque o expediente é
de meio período, já que na minha casa não existem
objetos quebráveis o bastante para preencher um dia inteiro.
Tudo começou com o
mistério das bolinhas. Sim, era só eu vestir uma roupa linda
e bem passada para perceber que ela fora irremediavelmente decorada com
pequenos círculos brancos e amarelos, dos mais diferentes diâmetros.
Falei, ensinei, bronqueei, ameacei. Nada adiantou. Nem cortar a água
sanitária da lista do supermercado adiantou, porque ela tinha a
bárbara coragem de comprar por conta própria ou até
de trazer de casa. Não me lembro direito o que foi que eu disse
no dia em que descobri isso, mas fez efeito: nunca mais encontrei bolinhas
novas. Em compensação, foi aí que a loira baixinha
voltou sua atenção para os meus móveis.
Com a desculpa de limpar
chão e paredes, ela tira tudo do lugar. E quando coloca de novo,
deixa as coisas do jeito que bem entender. E eu, como geralmente entro
em casa sem acender as luzes, vou colecionando trombadas, topadas, arranhões
e hematomas até conseguir encontrar um interruptor. O que, diga-se
de passagem, deixou de ser tarefa simples desde que a minha Maria Armentano
se especializou em colocar estantes, armários, guarda-louças
ou qualquer coisa bem grande no meio do caminho entre eu e eles. Tenho
falado, ensinado, bronqueado e ameaçado, mas até hoje não
consegui solução satisfatória para a questão.
E não pense que quando
não é dia de limpeza tudo fica sossegado, porque aquela coisinha
redonda já conseguiu derrubar um trilho de cortina que estava instalado
a quase três metros de altura, já conseguiu partir um cano
de torneira dentro da parede, já conseguiu quebrar quase todos os
meus copos de uma só vez e já conseguiu dobrar os pés
da tábua de passar roupa de forma inexplicável, dentre outras
coisinhas igualmente improváveis. E, por falar em passar roupa,
vira e mexe encontro o ferro totalmente separado do fio. Mando consertar,
mas eles se separam. Compro um ferro novo e eles se separam. Compro outro
ferro novo e eles se separam outra vez. Meus ferros de passar estão
ficando cada vez mais baratos e mais pesados. Só não arrumo
um a carvão porque tenho medo de que ela ponha fogo na casa. Isso
sem falar nas molduras de quadros, nos porta-retratos e nas mangueiras
de jardim, objetos esses que ela economiza para ir desmontando aos poucos.
Até o ano passado
eu tinha carpete na casa inteira e assistia a uma guerra sem fim contra
o aspirador de pó. Imaginei que arrancar o carpete resolveria o
problema, mas acabo de descobrir que a violência ao varrer e passar
pano já fez suas primeiras vítimas lá em casa: alguns
tacos recém-restaurados, dois vasos de cerâmica e um pé
de mesa que teria se agarrado ao rodo de forma tão apaixonada, que
acabou levando o grande tampo de vidro a se espatifar no chão.
E aí você me
pergunta por que cargas d‘água eu deixo que essa destruidora de
lares continue a agir livremente no meu. E eu te respondo: ela é
absolutamente honesta, muito bem humorada e, acima de tudo, passa bem longe
dos meus livros. Se não fosse assim, há muito já teria
descoberto o que é a fúria de uma mulher traída.
.... |