Tô pagando pra
ver
Não que eu desconfie
de estar desenvolvendo algum tipo de dependência com relação
ao controle remoto da televisão, mas outro dia - por razões
que prefiro não revelar aqui - apostei comigo mesma que conseguiria
passar pelo menos uma hora sem encostar um dedo nele. Escolhi um programa
interessante num canal interessante, olhei para o relógio e começou
a tortura.
Não, definitivamente
não era uma tortura movida pela síndrome de abstinência.
Acontece que, depois de anos e anos de pura distração, finalmente
eu percebi que estou pagando para assistir comerciais.
Bem, é preciso dizer
que na minha profissão é muito natural pagar para ver filmes
e anúncios premiados do mundo inteiro, em mostras e festivais. Tudo
bem, para assistir a esse tipo de comercial eu até pago com prazer,
mas o fato é que não estou falando dele. Estou falando é
daquela enxurrada de calhaus que inunda a minha, a sua, as nossas tvs por
assinatura.
Calhau, como você não
sabe e nem tem a menor obrigação de saber, é o apelido
técnico que se dá àqueles espaços que os veículos
de comunicação reservam para os comerciais, mas que acabam
não sendo vendidos. Então, para que não fiquem vazios,
o veículo providencia alguma coisa para preenchê-los: podem
ser campanhas de cunho social, anúncios negociados a custo baixíssimo,
permuta com fornecedores, uma infinidade de coisas, dentre as quais geralmente
predominam as mensagens do próprio veículo. Ninguém
está livre disso e vira e mexe aparece calhau em tudo quanto é
lugar. Só que a gente nem percebe, a não ser em caso de enxurrada.
E enxurrada de calhaus parece ser a especialidade de inúmeros canais
por assinatura, pelo que pude pesquisar depois daquela fatídica
aposta.
Gente, o que é aquilo?
Tá certo que intervalos maiores do que as partes do programa já
são fato geral e consumado até na tv aberta, mas daí
a alimentar esses intervalos sempre com a mesma fita de chamadas prolixas
e tediosas para a própria programação existe uma grande,
uma enorme, uma incomensurável distância. Disso, só
posso concluir que eles se adoram ou nos odeiam.
Caso se adorem, deveriam
pelo menos considerar a possibilidade de encurtar aqueles breaks, ainda
que para isso seja preciso repetir vinte vezes mais a mesma programação
para ocupar decentemente as 24 horas do dia. Com isso, ao invés
de se sentir enganado, o público teria mais opções
de horário para assistir à programação. Só
que, sabe-se lá o por quê, eles preferem espantar o telespectador
só de mostrar os intervalos. Será que é porque eles
nos odeiam?
Se for este o caso, eu te
pergunto: por que diabos, então, continuam no ar? E eu mesma te
respondo que só vejo duas possibilidades: ou porque gostam de pagar
para trabalhar, ou porque a venda de sinais para transmissão fechada
é mais lucrativa do que procurar anunciantes. Ou será que
eu estou redondamente enganada?
Outra desfaçatez de
primeira (ou de última) categoria é aquela história
de certos canais fechados passarem as manhãs (ou pelo menos boa
parte delas) tentando nos enfiar güela abaixo colchões de ar
de enchimento instantâneo, aparelhos de ginástica, ceras automotivas,
cabides, sapateiras, rolinhos catadores de pêlos e bugingangas afins,
em comerciais importados horrorosos e compridos que se repetem, se repetem,
se repetem à exaustão. Será que alguém acredita
que irá nos vencer pelo cansaço?
Eu sei que as operadoras
de tv a cabo ou satélite têm uma bela defesa, dizendo que
nos cobram apenas pelo serviço de transmitir os sinais. Mas sei
também que quando escolho um pacote ele já vem prontinho,
e não existe forma de evitar os canais espertos ou incompetentes,
a não ser desviando deles na hora de assistir televisão.
OK, eu posso até desviar, mas os taizinhos continuam lá,
ocupando espaço no meu dial e devidamente pagos.
Acho que as operadoras bem
que poderiam fazer uma pressãozinha para enquadrar ou dispensar
esse povo, mas, enquanto uma quantidade expressiva de assinantes não
demonstrar de alguma forma sua indignação, elas vão
continuar acreditando piamente que a gente adora calhau. Já sobre
essa quantidade expressiva, bem, isso eu também pago pra ver. Com
o controle remoto na mão, diga-se de passagem.
.... |