Você quer ser baleia
ou sereia, neste verão?
Pessoalmente não vi
ainda, e nem sei se as palavras são bem estas. O fato é que
ultimamente tenho recebido uma enxurrada de e-mails acerca de certa campanha
publicitária que ousa fazer tal pergunta ao mulherio.
Eu também não
li o briefing, não conheço o anunciante e nem sei qual é
o público que ele deseja atingir. Mas digo e repito, em alto e bom
som, que se o objetivo do tal produto ou serviço for deixar as mulheres
mais bonitas para ir à praia, a idéia é brilhante.
Coisa que quem escreve ou repassa tais e-mails está bem longe de
achar.
Recebi odes completas às
baleias e críticas horríveis às sereias. Li que as
baleias são mães maravilhosas, enquanto as sereias nem útero
têm. Li que as baleias são lindas e amigáveis, e que
as sereias são seres que encantam os homens para depois acabar com
eles. Li que as baleias são reais e as sereias são reles
personagens mitológicos. Também li uma profusão de
metáforas confusas, mas no final das contas não encontrei
uma linha sequer em defesa das sereias. Será que é porque
elas não existem de verdade, ou será porque as mulheres só
conseguem se comparar a baleias?
Cá entre nós,
eu acho que é muita pretensão alguém conseguir se
enxergar como baleia ou como sereia. Afinal, o privilégio de poder
desfilar um corpinho ou um corpanzil comparável a uma ou a outra
é coisa limitada a meia dúzia ou até menos. Além
do mais, fazendo uma análise fria, imparcial e equilibrada pode-se
concluir que, na escala de proporção entre baleias e sereias,
99,9% das mulheres está muito mais para sereia. Golfinho até
poderia ser, muito de vez em quando. Baleia nunca. A não ser, talvez,
imóvel numa cama de spa. O que, aliás, não combina
em nada com o estilo ágil de uma legítima baleia.
Mas digamos que, ainda assim,
alguém insista. Bem, se estiver se vendo como sereia, ótimo.
Deve ser maravilhoso não ter órgãos sexuais e deixar
os homens aterrorizados com a possibilidade de serem arrastados e afogados
nas profundezas. E se estiver se vendo como baleia, péssimo. Quem
suportaria ter vida sexual, dar à luz filhotes fofos, ser meiga
e afável, ter muitos amigos e etcétera e tal?
Como diz um sábio
amigo, não importa se é baleia ou sereia: caiu na rede é
peixe. Quer indício melhor de que as mulheres seriam muito mais
felizes caso se concentrassem em ser apenas um peixão? Pois é.
E aí eu fico me perguntando:
por que tanta ira contra a tal campanha publicitária, se o produto
ou serviço que ela vende só quer o bem do corpo, seja ele
do tamanho que for?
De qualquer maneira, dadas
as proporções da ira, eu espero sinceramente que o tiro (ou
melhor, a verba) não tenha saido pela culatra. Pra ser bem sincera,
eu tenho a nítida impressão de que ela vai beneficiar todo
mundo que trabalha nesse ramo.
Já quanto às
mulheres que perdem o humor quando pensam no formato do próprio
corpo, mas ficam revoltadas quando alguém se dispõe a mudá-lo,
bem, eu acho que estou mesmo ficando louca.
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