Aperte o botão,
retire o seu ticket e boas compras.
Aquela voz enjoada nunca
se altera, ainda que você esteja com pressa ou que a fila de entrada
esteja dando voltas no quarteirão. Só resta, então,
aumentar o som do rádio, retirar o cartãozinho o mais rápido
possível e passar pela cancela antes do fim da saudação.
A partir daí, você
terá 20 minutos de estacionamento grátis. Tempo mais do que
suficiente para encontrar uma vaga, disputá-la a tapa com outro
motorista, alcançar o acesso para as lojas sem ser atropelado, esperar
pelo elevador ou percorrer quilômetros de escadas rolantes, voar
pelos corredores e passar, triunfante e suado, pela porta da loja que você
foi visitar.
Em dias de muita sorte talvez
você tenha, ainda, tempo para cumprimentar o vendedor. Depois disso
a pressa acaba, porque o seu carro conquista o direito de passar as próximas
3 ou 4 horas parado no mesmíssimo lugar, pela módica quantia
de 3 ou 4 reais. Mas não se preocupe: se você precisar dele
dentro de meia hora ou menos, o preço continua o mesmo.
Tá, eu me lembro muito
bem dos espertinhos do tempo do estacionamento grátis. Aqueles,
que insistiam em deixar o carro no shopping enquanto trabalhavam em período
integral nas empresas da região. Concordo que alguma coisa precisava
mesmo ser feita para que as vagas ficassem à disposição
dos clientes. E acho que a solução mais lógica seria
estabelecer faixas de despesa, em um ou mais estabelecimentos, que abonassem
períodos de tempo de estacionamento. Algo assim como "gaste X e
ganhe 1 hora de estacionamento, gaste Y e ganhe 2 horas de estacionamento,
gaste W e ganhe 3 horas de estacionamento. Vá ao cinema e tenha
2 horas de estacionamento grátis". Complicado? Só se os caixas
não souberem ler e somar os valores das notas fiscais. Acho incrível
que eles não tenham pensado nisso antes. De qualquer modo, não
é exatamente este o assunto que me traz aqui.
Hoje, anos e anos depois
da implantação (e da fácil aceitação)
do estacionamento pago nos shoppings, não há mais nada que
se possa discutir, a não ser sobre a evolução (ou
involução) do tratamento que vem sendo dispensado a nós,
dóceis clientes e causa única de tantos produtos, serviços
e empregos reunidos.
O fato é que outro
dia, por coincidência, acidente ou descuido, eu permaneci dentro
de um desses grandes shoppings quase até o término do expediente.
Quando me dei conta de que as lojas iriam fechar, fui direto para o caixa
de estacionamento do andar em que deixara o automóvel. Dei de cara
com um funcionário emburrado e cheio de pressa, juntando suas coisas.
Fiz menção de pagar. Ele fez cara de horror, disse rispidamente
que estava fechando e me mandou de volta para o térreo. Bem feito
pra mim. Quem mandou ficar gastando dinheiro e ajudando a garantir o emprego
de tanta gente, até aquela hora?
Obviamente, no único
caixa aberto do térreo havia uma fila pra lá de imensa. Pior:
ninguém parecia ter notado o ridículo da situação.
Pior ainda: todos pareciam concordar com ela. Afinal, o mundo inteiro deveria
estar cansado de saber que pontualmente às 22 horas o shopping fecha
e as pessoas vão embora. Inclusive os caixas de estacionamento.
Menos aquele anjinho lerdo ali na frente, que teria ficado apenas para
nos fazer um grande favor.
Bem, minha avó sempre
dizia que a gente pode estar certa quando acha que uma pessoa está
errada, pode estar certa quando acha que duas pessoas estão erradas,
pode estar certa quando acha que três pessoas estão erradas.
Mas nunca está certa quando acha que todo mundo está errado.
Por isso, ao olhar bem para
o tamanho daquela fila cordata, coloquei o rabo no meio das pernas, esperei
durante uns 20 minutos arcando com todo o peso das minhas compras, paguei
os 4 reais que me cabiam, voltei para o andar em que estava o automóvel,
apertei o botão rapidinho e passei pela cancela ouvindo um monocórdico
"volte sempre".
Só agora que estou
aqui, conversando com uma pessoa justa e equilibrada como você, eu
me arrisco a perguntar: estarei ficando louca?
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