| A coisa tá feia
Já não bastavam
as pixações, as faixas, as placas, os cartazes de muro, a
fiação exposta, as caçambas de entulho, os sacos de
lixo e tantos outros quetais: agora, a mulherada também deu de colaborar
fortemente para com a poluição visual da cidade. Não,
não estou falando de todas: só daquelas que fazem questão
de estar em dia com a moda.
Gente, eu nunca vi tanta
barriga de fora na vida, como neste último ano. Barrigas fartas
e redondas, barrigas pontudinhas, barrigas espalhadas, barrigas empinadas
ou caídas, barrigas com um risco peludo subindo para o umbigo, barrigas
brancas, bronzeadas ou manchadas, barrigas flácidas, lisas ou cheias
de dobrinhas. Uma infinidade de barrigas em tal diversidade de modelos
que eu nem julgava existir. Todas solenemente expostas, balançando
ou não, naqueles vinte e poucos centímetros de espaço
descoberto que fica entre o cós da calça e a cintura.
E o que é pior: em
todos esses meses de observação pelas ruas, ônibus,
shoppings e escritórios, juro que não encontrei mais do que
meia dúzia de mocinhas que fizessem jus ao tal modelo. E digo mocinhas
porque, em sua maioria, elas não tinham mais do que 14 anos de idade.
Não que eu tenha alguma
coisa contra os diferentes formatos de corpo ou de barriga. Muito pelo
contrário, já que eu mesma sou portadora de uma protuberância
abdominal que (não) merece (qualquer) destaque. Acho que tanto as
formas longilíneas quanto as arredondadas merecem respeito, de preferência
com o uso de roupas que acomodem confortável e dignamente qualquer
excesso ou falta de massa adiposa que possa existir ao redor dos quadris,
acima ou abaixo deles. E aí eu te pergunto: será que alguém
é capaz de classificar como confortável um modelo de calça
que achata os quadris a ponto de engrossar a cintura e inventar barriga
até mesmo nos corpos mais sequinhos? Duvideodó. E será
que alguém acha que é muito bonito sair por aí desfilando
a pelanca? Oras bolas, se fosse assim a maior parte das usuárias
não ficaria puxando a mini-blusa pra baixo o tempo todo, numa tentativa
vã de demonstrar arrependimento ou disfarçar a ousadia. É
ou não é?
Será que está
faltando tecido na praça? Será que o comprimento do zíper
foi reduzido pela metade? Ou será que foi alguma espécie
exótica de surto? Juro que eu não sei. Só sei que,
pelo menos até onde a minha vista alcança, colocar a barriga
de fora em ambiente urbano é uma decisão que se toma por
conta própria e auto-risco, e que o fato de isso estar na moda não
é desculpa para o exercício da poluição visual.
Eu multaria uma por uma, sem dó nem piedade.
Se um dia desses você
acordar com uma vontade irresistível de sair pela rua com a barriga
de fora, resista. Resista bravamente até a vontade passar. E lembre-se:
qualquer esforço que se faça neste sentido é muito
mais civilizado do que comprometer a imagem diante dos olhares críticos
e das más línguas, incluindo a minha.
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