Publicidade para leigos
1
Toda a fama e a magia
Em todos esses meus
anos de publicidade, já ouvi os comentários e definições
mais exóticos sobre a minha profissão. Sinal de que as pessoas
sabem pouco sobre ela.
Por isso, e já que os
bastidores da propaganda sempre causaram um certo fascínio sobre
o público, decidi escrever a série "Publicidade para Leigos", que está começando agora e terminará, provavelmente, dentro de alguns anos.
Mas não pense que
eu pretendo passar esse tempo todo torrando a sua paciência
com este assunto, não. Até porque, bem antes disso, a minha
própria explodiria. Bom, agora que você já teve tempo
pra se preparar, vamos em frente.
No princípio, eram
as mulheres que "não prestavam".
Antigamente,
qualquer mulher que "trabalhasse fora" carregava a fama de "não
prestar". Mais tarde, só as enfermeiras e comissárias de
bordo continuaram "não prestando". Mas isso só até
as agências de propaganda começarem a se multiplicar. Porque
aí o monopólio acabou e as publicitárias passaram
a "não prestar", também.
Tá certo que, quando
eu comecei minha carreira, essa fase já estava bem no finzinho.
E eu lá, orgulhosíssima das conquistas femininas. E muito
boba, diga-se de passagem. Porque hoje eu tenho certeza de que uma
vida dedicada à vadiagem teria sido bem mais saudável e menos
cansativa.
Mas já que não
adianta chorar sobre o soutien queimado, é melhor mudar de assunto.
Quer dizer: é melhor voltar logo para o tema desta crônica,
antes que você descubra o quanto eu sou capaz de ser prolixa e tediosa.
A fase seguinte foi a do
encantamento geral.
Todo mundo morria de inveja
dos publicitários, por causa de umas bobagens que só Deus
sabe de onde surgiram. E, por incrível que pareça, até
hoje existe gente que acredita: "Puxa, que maravilha! Na sua profissão
não tem rotina, né?".
Não, não tem.
O profissional de criação é um cara (ou uma cara)
que divide a mesma sala com vários outros profissionais de criação.
Por uma dessas obras do destino, a sala é conhecida como Criação.
O número de profissionais que trabalham lá dentro varia de
acordo com o tamanho da agência. Mas todos eles, todos os dias, entram
na sala e ficam lá, tendo idéias (idéias diferentes,
é claro), enquanto pelo menos umas cinco pessoas (pessoas diferentes,
é claro) ficam telefonando a cada três minutos (de telefones
diferentes, é claro) para perguntar a cada um (de maneiras diferentes,
é claro) se ele já teve aquela grande idéia, porque
"já estamos em cima do prazo" (isso aí é sempre igual).
E, não contentes em
telefonar, alguns colegas (bem diferentes, é claro), vão
até a Criação para pressionar. Ou palpitar. Ou simplesmente
xeretar. Ou matar o tempo. Ou bater papo. Ou se esconder do chefe. Mas
tudo isso sempre das maneiras mais originais, é claro.
A essas alturas, você
nem precisa usar muito a imaginação para perceber que o pregão
da Bolsa é fichinha.
E como a Lei de Murphy existe,
geralmente é bem numa hora dessas que aparece uma visita. Daquelas
que nunca tinham entrado numa agência de publicidade, antes. E olha
tudo aquilo. E comenta, com aquele ar encantado: "Mas não é
que esse pessoal de criação é meio doidinho, mesmo?"
Não perca no próximo
capítulo:
Jantares incríveis,
festas maravilhosas
.... |