Publicidade para leigos
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Jantares incríveis,
festas maravilhosas
Vimos, no capítulo
anterior, que ter várias grandes idéias em pleno pregão
da Bolsa é praticamente impossível.
É por isso que os
publicitários têm cara de doidinhos. E têm, ainda, que
esperar o "pregão" acabar sempre que quiserem fazer (direito) qualquer
coisa que exija um mínimo de concentração. Mas isso,
via de regra, só acontece quando metade da agência vai embora
e os telefones (finalmente) páram de tocar.
Aí, lá pelas
nove ou dez da noite (que é quando o grupo percebe que não
vai conseguir sair antes da uma da manhã, mesmo) alguém providencia
um daqueles incríveis jantares dos quais você tanto ouviu
falar.
Os participantes são
aquelas figurinhas carimbadas, muitas das quais cheias de prêmios,
que aparecem no melhor estilo "cara de sono" ou "verde de fome". O cardápio
é exclusivo daquela pizzaria ali da esquina, que entrega muito rápido.
E o serviço, moderníssimo, é feito pelo sistema digital.
O quê? Você não
conhece o sistema digital? Bem feito. Quem mandou não ser publicitário?
Bom, já que você
está sendo legal comigo por ler esta crônica, eu vou ser legal
com você e revelar todos os detalhes. É assim: primeiro você
corre para garantir um bom pedaço da pizza. Depois, você faz
uma manobra delicada para tirá-lo da caixa e colocá-lo num
guardanapo de papel sem fazer muita meleca. Mas, independentemente do seu
treino e habilidade, o azeite vai pingar, o tomate vai escorregar, a cebola
vai cair na sua roupa e o queijo vai grudar em tudo ou vai ficar se esticando
naqueles fiapos indestrutíveis que você conhece muito bem.
E tudo isso vai acontecer justamente quando todo mundo estiver olhando
pra você.
Mas nada disso importa. O
que importa - de verdade - é que você está jantando
com gente brilhante, requisitada e badalada. E que aquele trabalho tem
que ser entregue amanhã, de qualquer jeito. Ainda que os computadores
dêem "pau" ou que haja uma epidemia de catapora na agência.
E note que o fato de um determinado
trabalho precisar ser entregue "amanhã, de qualquer jeito" não
quer dizer que ele já tenha sido comprado ou que vá ser pago.
É que publicidade (pelo menos até onde o meu radar ocular
alcança) é o único serviço do mundo que precisa
ser executado para, só então, poder ser vendido.
Qualquer outro tipo de serviço
pode ser orçado antes. Até cirurgia cardíaca. Mas,
como vender uma campanha publicitária sem mostrar para o cliente
(detalhadamente) qual é a idéia? E, como orçar a execução
da idéia sem mostrar para os fornecedores (detalhadamente) o que
é que a gente quer que eles façam? Simplesmente não
dá.
Foi por isso que inventaram
o "layout". Ou melhor, "os layouts", porque um layout sozinho não
faz verão. Se o cliente não aprovar os layouts (ou pelo menos
unzinho só), aquela sua grande idéia vai direto para o lixo
(ou, quando muito, para um CD de backup lá no fundo do armário).
Mas se o cliente aprovar, em compensação, o trabalho da Criação
já estará concluído. E aí é a maior
festa.
Aliás, por falar em
festa, o mundo da publicidade está repleto de festas. Existem as
festas que os publicitários fazem para homenagear os clientes, existem
as festas que os fornecedores fazem para homenagear os publicitários,
existem as festas que os clientes fazem (com ajuda dos publicitários
e fornecedores) para homenagear os clientes deles e, finalmente, existem
aquelas que os publicitários fazem para homenagear a si mesmos.
Tradicionalmente, o publicitário
em início de carreira vai a todas. Mas, com o tempo, ele começa
a ter que racionalizar suas energias e o seu guarda-roupa. Primeiro, passa
a ir só às festas mais importantes. Depois, só às
indispensáveis. E, por fim, só àquelas que lhe dão
prazer. Isso se não tiver um "daqueles" jantares, naquele dia.
Mas existe uma altura do
campeonato em que a festa mais maravilhosa de todas, mesmo, é quando
o publicitário consegue ir pra casa antes das dez, deitar e dormir.
Não perca no próximo
capítulo:
Gente bonita, carrões
e viagens fantásticas
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