Publicidade para Leigos
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Gente bonita, carrões
e viagens fantásticas
Vimos, nos capítulos
anteriores, que publicitários são uma espécie meio
doidinha que se alimenta principalmente de pizza e que, quando chega à
maturidade profissional, adquire o estranho hábito de trocar festas
maravilhosas por uma boa noite de sono.
Em compensação,
os publicitários vivem rodeados de carrões e de gente bonita.
Isso sem falar nas situações interessantes e nas viagens
fantásticas. Coisas que, eu diria, não se vêem facilmente
na vida real.
Mas quem foi que disse que
tudo isso faz parte da vida real, heim? Sim, porque em publicidade quase
todos carrões são parte de algum cenário, quase toda
aquela gente bonita é parte de algum elenco e quase todas as situações
interessantes são parte de algum roteiro.
Bem, pelo menos os roteiros
são do publicitário, mesmo. Tá bom, tá bom:
são do publicitário com dois ou três palpites do diretor
de marketing do cliente. Ou do atendimento. Ou do diretor do filme. Ou
do fotógrafo. Ou do produtor. Ou do dono da agência. Ou do
pessoal da pesquisa. Ou de todos eles juntos. Mas, afinal, toda essa gente
também é - ou se sente - publicitária da gema. E quem
não é e nem se sente, ou não passa de um intrometido
(que você manda ficar quietinho e pronto) ou está pagando
a conta (e manda você ficar quietinho e pronto).
E, além disso tudo,
têm também as viagens. Que são verdadeiramente fantásticas
e inesquecíveis.
A maior parte das viagens
que um publicitário faz tem saídas da agência entre
as oito da manhã e as cinco da tarde, com destino a algum lugar
de difícil acesso no cinturão industrial da cidade. Ou aos
grandes centros empresariais, mas só se for no auge da hora do rush.
E como aquela maldita impressora
sempre dá pau na última hora, o publicitário acaba
se atrasando e tem que botar a culpa no pneu. Ou num caminhão quebrado.
Ou no descarrilamento de algum trem de carga em Ituiutaba. E nas poucas
vezes em que a maldita impressora se comporta direito, é provável
que o publicitário se distraia por um instante e erre o caminho.
E aí ele se vê completamente perdido na periferia de São
Miguel Paulista, por exemplo, bem na horinha em que deveria estar numa
reunião de diretoria no centro de Guarulhos. Mas a vida é
mesmo assim.
De qualquer forma, o publicitário
sempre se lembra muito mais da menor parte das viagens que faz. Até
porque ele pertence a uma das raríssimas espécies que são
capazes de passar dias e dias num lugar de praias paradisíacas,
sem conseguir botar nem o nariz pra fora de uma fábrica ou escritório.
Eu mesma já passei
um mês inteirinho trabalhando em Florianópolis. Todo dia era
um sol de rachar e aquele marzão azul bem na frente da janela. Mas
só os dias de semana, obviamente. Porque nos meus cinco finais de
semana em Floripa choveu. E quando não estava chovendo, o céu
ficava muito nublado. E eu acabei perdendo todo o bronzeado que tinha levado
de São Paulo, Capital. Imagina.
Noutra ocasião, passei
cinco dias em Blumenau mas só tive meia horinha pra ver a cidade.
Isso porque perdi o primeiro ônibus que leva os passageiros pro aeroporto,
em Navegantes.
Também passei lindos
dias em Caxias do Sul. Pegava o vôo das 6h30 daqui pra lá
e o das 16h de lá pra cá. Eu adoraria conhecer a cidade,
mas nunca deu. Bem, pelo menos consegui descer a serra gaúcha. Uma
única vez. Foi num final de tarde sem teto, em que o meu vôo
foi transferido. Naturalmente eu dormi durante o trajeto inteiro, porque
havia levantado às 4h da manhã. Mas, em compensação,
estive em Porto Alegre, conheci uma sala de embarque inteirinha e até
andei pela pista do aeroporto. Não é o máximo?
Bem, eu reclamo, reclamo,
mas sei que os meus casos não são lá dos piores. Imagine
você que existem milhares de publicitários do mundo inteiro
que têm que se reunir em Cannes uma vez por ano, só pra passar
dezoito horas por dia dentro de uma sala escura, assistindo a comerciais.
Fala a verdade: isso é ou não é fantástico?
Não perca no próximo
capítulo:
O estilo e os lugares
da moda
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