Publicidade para Leigos
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O estilo e os lugares
da moda
Vimos, nos capítulos
anteriores, que publicitários vivem de imaginação,
que sua principal fonte de nutrientes é a pizza, que adoram faltar
a festas, que praticam esportes radicais como "alongamento de prazos",
"corrida à reunião com obstáculos" e "percursos de
longa distância sem conhecer nada" e que, mais cedo ou mais tarde,
acabam rindo muito de tudo isso.
Em resumo: vimos que publicitários
são seres esquisitos paca, mas que pelo menos têm estilo.
Sim, porque o próprio fato de fazer tudo isso aí com regularidade
já caracteriza o estilo de vida de toda uma espécie.
E, como em qualquer outra
espécie, os publicitários também reúnem os
mais diferentes tipos. Quando eu comecei no setor, por exemplo, haviam
três tipos básicos: os praticamente hippies (embora Woodstock
já tivesse terminado há muito tempo), os praticamente de
esquerda (que se diziam contra o consumo, mas todo mundo desconfiava que
eles só eram contra o consumo de whisky nacional) e os praticamente
normais.
Com a evolução
da espécie, tipos foram surgindo e tipos foram sumindo, mas as pessoas
continuaram sendo mais ou menos as mesmas. Foi assim que conviveram, na
mais ampla harmonia, os praticamente góticos com os praticamente
chiquérrimos, os praticamente punks com os praticamente new ages
e os praticamente hard rockers com os malucos-beleza. Note que esses últimos
não são praticamente, porque todo maluco-beleza é
maluco-beleza por inteiro.
Depois vieram os praticamente
news waves, os praticamente neo-clássicos, os praticamente yuppies,
os praticamente saudosistas e os praticantes de yôga e de meditação
transcedental. E me perdoem os colegas se, porventura, eu esqueci de alguma
tendência ou tribo.
O fato é que, até
hoje, temos um pouquinho disso tudo e mais os executivos, os mauricinhos,
as patricinhas, os tecnocratas, os burocratas, os playboys de todas as
idades, as senhoras recatadas, os essencialmente técnicos, os essencialmente
filosóficos, os rebeldes, os políticamente corretos, os funkers,
os sertanejos e os modernetes em geral. E eu não vou dizer praticamente
pra nenhum desses casos, porque só quando a fase acaba é
que a gente vai saber se o povo era praticamente ou não. E também
não me pergunte onde é que eu me encaixo, porque já
repetí duzentas e cinqüenta vezes que só ligo o computador
pra falar sobre terceiros.
Como, então, identificar
um publicitário na rua diante dessa salada toda? Muito simples:
basta verificar se a pessoa suspeita está portando uma pasta enorme
de couro ou de papelão. Porque é sempre numa pasta enorme
de couro ou de papelão que o publicitário transporta o seu
trabalho. Da agência para o cliente e do cliente para a agência,
às vezes passando pelo escritório de algum fornecedor, pela
própria residência ou até mesmo pelos lugares da moda.
Sim, porque até hoje
muitas reuniões começam, terminam ou acontecem inteiras nos
lugares da moda. Mas só se for na hora do almoço ou no comecinho
do happy hour. Porque a hora do jantar e o finzinho do happy hour não
foram feitos para apresentar trabalhos: foram feitos pra fechar negócios.
Como, então, identificar
os lugares da moda, se você não localizar pelo menos uma enorme
pasta de couro ou de papelão lá dentro? Simples outra vez,
prezado leitor: basta verificar se o local suspeito parece caro demais
ou sofisticado demais ou transado demais para abrigar toda aquela biodiversidade
humana que está desfilando lá dentro. Porque, em 99,98% das
vezes, os publicitários desfilam, se divertem e esnobam como pessoas
físicas, mas quem paga a conta é alguma pessoa jurídica.
E aqueles 0,02% que porventura ficarem por conta deles serão tema
de reclamação para o resto da vida. Afinal, freqüentar
os lugares da moda sempre foi um sacrifício enorme que os publicitários
só fazem porque amam demais o seu trabalho. Isso é o que
eu chamo de gente esforçada!
Não perca no próximo
capítulo:
Fofocas, dicas e manias
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