| De livros e de livrarias
Ontem fui realizar o meu
sonho de consumo: comprar livros. Ler é viajar, conhecer novas personalidades,
conviver com outras gentes de quaisquer lugares, fugir da nossa realidade
e aprender mais sobre pessoas, coisas e paisagens. Ler é criar,
pois na leitura compomos os cenários, as fisionomias, temos antipatias
e empatias, torcemos por determinados personagens e não podemos
ajudar ou interferir em nada. Porque já estava escrito.
Dizem que os livros alimentam
o espírito e isso é uma verdade incontestável.
Pena que hoje não
se fazem mais livreiros e livrarias como antigamente. Entrei na livraria,
a maior e mais badalada da cidade, com aquela fome brutal de livros e fiquei
ali, passeando entre gôndolas e prateleiras catalogadas, arrumadinhas,
assépticas e muito iluminadas, procurando ler
as orelhas, analisando capas
(como estão caprichando nas capas dos livros!), quando fui abordada
por uma atendente. Jovem, bonita, simpática e muitíssimo
educada: "Posso ajudar-lhe em alguma coisa?". Então contei a ela
que ando com vontade de ler biografias de gente que, sabe-se, viveu vidas
fascinantes, tanto profissional como emocionalmente. Pensei nisso, mas
não falei. Apenas arrisquei "Desejo ler as biografias de Truman
Capote, Cole Porter e Coco Channel.
Ela olhou-me com aquele olhar
vago, sem qualquer expressão e perguntou a profissão de cada
um deles, pois nunca ouvira esses nomes e não fazia idéia
de quem pudessem ter sido ou feito para merecerem uma biografia. Com essa
informação ela poderia poderia procurar no computador. Pensei
em como eu poderia dizer em uma simples palavra quem foi cada um deles.
Coco Channel foi uma empresária
ou estilista? Marketeira antes do Marketing ser conhecido ou, quem sabe,
uma guerreira talentosa, uma mulher que viveu adiante do seu tempo? E Capote
foi só um escritor e dramaturgo?
Com Cole Porter seria mais
fácil, pois foi (no meu entender) o maior, melhor e mais fecundo
compositor americano do século 20. Mas dele eu disse apenas "compositor".
Ela, então, buscou no catálogo eletrônico e me disse
não existir nada a respeito dessas pessoas.
Acabei comprando um livro
de consolação, sob o sugestivo título "Saudades do
Século 20" de Ruy Castro. Mas este texto é para falar de
livros e de livreiros. demais.
Do tempo em que se entrava
numa pequena livraria, com apenas o livreiro, normalmente o proprietário,
como atendente e ele sabia tudo, conhecia todos os livros que estavam ali,
nas prateleiras do seu negócio. Convivia com autores e personagens
como se fossem seus amigos, parentes e vizinhos. O livreiro funcionava
como um psicólogo e ficava longo tempo conversando sobre livros,
autores, estilos, conteúdos. Investigava o interior de cada freguês
e recomendava um livro como um médico recomenda um remédio.
E, pelo menos comigo, esses
livreiros nunca erraram. Bastava que a gente chegasse com aquela cara de
carente por um auxílio, elogiasse o seu trabalho e o aconchego da
sua loja e lá vinha ele, com toda a sua sabedoria, seu conhecimento
e amor pela literatura. E a gente saía de lá com o livro
certo. Creio ser essa mais uma profissão em extinção.
vaidades".
Também o ato de comprar
livros perdeu seu encanto. Nunca o de lê-los. Mas se alguém
souber onde e como estão essas biografias, avise-me por favor! E
também onde encontrar um livreiro com sua pequena e aconchegante
livraria, até com aquela poeira típica do ambiente e de preferência,
com a porta de vidro que bate o sino ao se abrir, avise-me!
Sobre o tema, leia também
São
Tomé das Letras, da Roseli .
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