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Joyce é jóia (I)

Ou pelo menos acho que é. Estive lendo um de seus contos, o último do livro Dubliners, intitulado The Dead. Bonito. Mas não entrou pra minha lista dos "dez mais." Apesar de magnificamente bem escrito, a princípio não "bateu." Li-o à tarde. Depois saí de casa, buscando desaparecer em meio à turba, na desagradável vulgaridade de uma noite de sexta-feira. O horror, o horror e as meninas mal- vestidas... Enfim, já bastante embriagado e tendo minha sensibilidade cruelmente bombardeada pelos tenebrosos compassos da pior espécie de dance music, subitamente me vi relembrando a última passagem do conto de Joyce. Ela acontece à noite, num quarto de hotel. Gabriel, o protagonista, ouve de sua esposa que um dia, muitos anos antes de conhecê-lo, ela havia amado outro homem (que agora está dead, como indica o título). Mais tarde, Gabriel a observa dormindo. E subitamente se dá conta da "pequena participação" que teve na vida de sua própria mulher, que guarda em silêncio incontáveis e misteriosos segredos, mundos e mundos de sutis sentimentos (e que mulher não guarda?). Ao pensar nessas coisas, "nosso herói" não sente raiva da esposa, ao contrário, sente uma incontrolável onda de ternura se avolumar em seu peito: sabe que aquilo que existiu entre sua esposa e o falecido "chama-se amor". O conto se encerra com Gabriel na janela contemplando a neve que desce sobre Dublin, sobre tudo e sobre todos, "sobre os vivos e os mortos". 

( ...que vontade de fugir para Dublin e me deixar soterrar por essa neve...)

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