...

 
Palavras Cruzadas

- Ai, ai... O jornal de hoje...Igualzinho ao de ontem!
- Como assim, Flávio?
- Ah, Marina, igual ao de sempre, as mesmas histórias, só mudam os nomes dos protagonistas, os locais e as datas... Mas são sempre as mesmas histórias.
- Teoria interessante - respondeu ela rindo ? Pode provar isso?
- Com prazer, meu anjo. Me passa o primeiro caderno. E o café.
- Claro, meu amo ? ao ouvir isso, ele sorriu e encheu a boca de pão com manteiga. Depois abriu o jornal e disse:
- Que assunto você prefere? Guerra? Corrupção? Política (Ué! Corrupção e Política não são a mesma coisa?)...? Seqüestro?
- Seqüestro - disse ela. Depois voltou atrás - Não, não, melhor! Guerra!
- Guerra. Guerra para o meu docinho de coco. Deixa ver... Acho que tem uma boa aqui. 
Título: “Confrontos matam quinze palestinos na faixa de Gaza. Quinze palestinos morreram desde ontem à noite em confronto com soldados israelenses na faixa de Gaza”.
- Então! Viu? Não é igual à de ontem. É parecida...
- Igual! Só que ontem eram dez israelenses. Podemos até fazer uma brincadeira: escreva você mesmo o seu jornal! É só mudar umas coisinhas, começando pelo título: Confrontos matam oito...Hã... deixa eu ver... indianos, é indianos acho que fica bom...Em Nova Delhi! Pronto, esse fica para a próxima guerra. 
- Mas não é a mesma coisa...
- É sim. Vamos ler mais... Sete dos soldados morreram em combates com as tropas de Israel perto do assentamento judeu de (insira aqui um nome exótico e difícil de pronunciar)...
- Mas é assim que você vê as coisas? Para você são só nomes exóticos, palestinos, indianos, chineses... Você acha que eles não são gente?
- É claro que são! Não diga bobagem! O que estou querendo te mostrar é que os fatos são, no fundo, ou em essência, se preferir, muito simples. E escrever sobre eles, assim, factualmente, é mais simples ainda- colocou a mão no queixo, seu gesto habitual- Chega a ser tentador reescrever algumas destas notícias... O esquema é simples. O exército A luta com o exército B, no conflito em X. Tantos mortos para cá, tantos para lá, algumas palavras do Papa, ou das Nações Unidas, pedindo o fim do conflito, algumas bombas explodindo, fotos de mulheres e crianças desesperadas, sendo empurradas, é empurradas por soldados truculentos (pleonasmo?) tendo ao fundo umas ruínas... Tudo sempre igual. Só mudam os nomes, os idiomas, o tipo de bombas (vão ficando mais letais). E isso porque ainda estamos só em Guerra, nem chegamos aos outros assuntos...
- Então você não se importa com a vida dessas pessoas?
- Me importo! Claro! Passa o suco? Claro que me importo. Mas de que adianta? Estou sentado aqui, tomando café com você e me importando pacas... Mudou em alguma coisa a vida dessas pessoas o fato de eu estar aqui me importando? 
- Então por que você não faz alguma coisa por elas?
- O quê, por exemplo? 
- Sei lá! Entra para uma ONG, para a Anistia Internacional, para a Cruz Vermelha...
- Não tenho esse perfil. Sou muito hedonista.
- Semana passada era niilista.
- Os dois. E misantropo. E misógino. E louco por você, apesar de misógino. Dá um beijo?
- Não. Você tá cheio de manteiga. Não vai reinventar mais nada no jornal?
- Para que? É tudo igual. Mudam apenas alguns nomes...Datas...Lugares...O que é Cabul para mim? O mesmo que Amsterdã: uma abstração. Uma palavra. Nunca estive lá. Uma tem escombros, a outra maconha e tulipas. Meras palavras. Nada é tão real neste momento quanto este pedaço de pão com manteiga. 
- Como você é simplista...
- Isso eu sou mesmo. Tenho horror à complexidade. Coisa de gente pedante. Me dá um beijo, vai...?
- Nã-o!

Silêncio. Comiam. Bebiam leite. Foi ele quem recomeçou a conversa: 

- “Os acontecimentos me aborrecem”... De quem é essa frase mesmo, honey?
- Ah, só pode ser do Paulo Francis, o maior gênio que já caminhou sobre a terra! Você só fala em Paulo Francis!
- Não, não é dele não... É ele citando alguém, outro autor...Bom, deixa, pra lá. Os acontecimentos me aborrecem,  a frase é verdadeira, não importa seu autor. 
- Tá, os acontecimentos te aborrecem, as notícias são inúteis, a vida é uma droga. Mas não tem nada no jornal que te interesse?
- Tem. As palavras cruzadas. Passa o açúcar?

....