| Pelo amor de Deus
- Você tá quieto...
No que você está pensando?
- Em Jesus Cristo.
- Hã? Você
estava rezando? No meio do filme?
- Não, não
estava rezando, Marina. Estava pensando nos Evangelhos Apócrifos.
- Ah, sei... Vamos
fazer pipoca?
- Não. Quais são
os quatro evangelistas mesmo?
- Espera, deixa eu dar pause
no vídeo... Os quatro evangelistas? Não sei! Eu não
sou católica, esqueceu, xuxu? E o intelectual da casa é você...
- Hum, acho que são...
João, Lucas, Mateus...E...Hum...Elvis! Não tinha um chamado
Elvis, que depois virou cantor de rock?
- Não brinca assim
que é falta de respeito...
- Mas você nem é
católica!
- Mas minha mãe é!
E minhas tias! E agora vamos ver o filme... E chega mais pra lá
que eu tô quase caindo do sofá...
- Não, espera...
O que eu estava pensando é o seguinte... Aliás, como é
que pode você não ser católica se a sua mãe
é? Isso não é hereditário? Esquece... O que
eu estava pensando é que talvez toda essa história de Jesus
e tudo mais tenha sido inventada por esses quatro excelentes escritores,
o Elvis e os outros três, os evangelistas.
- Que absurdo! Todo mundo
sabe que Jesus existiu, até os judeus, que não acreditam
que ele era o Messias! Existe até o Santo Sudário; ele foi
um personagem histórico!
- Claro, não estou
discutindo isso, amorzinho... Estou só imaginando o seguinte: Jesus
existiu, mas não era filho de Deus. Ou melhor, era, mas tanto quanto
eu e você. Não era dotado de poderes especiais. Mas tinha
idéias interessantes. Era um ser humano muito especial. Amealhou
discípulos (gostou do termo?). Pregou. Se arriscou. Demonstrou sua
virtude, sua bondade. O cara não era fácil. Por isso, foi
perseguido. E aí, como todos nós sabemos (até os judeus,
até os xintoístas, até os zen budistas), morreu na
cruz. E pronto. Estava tudo acabado. Tudo de bom que ele pregou só
restava na memória de algumas pessoas, uns poucos privilegiados,
que entenderam a mensagem. O que fizeram os nossos quatro discípulos
criativos, então, nossos quatro escritores talentosos?
- Não sei, Flávio!
Que fizeram eles? O Elvis, o Ringo e os outros dois?
- Eles inventaram os milagres,
ué! Tornaram a história mais interessante, mais vendável!
Puseram os efeitos especiais! E ainda fizeram o herói ressuscitar
e ir para o Céu no final, que é para deixar a gente eternamente
esperando uma continuação! Os caras eram gênios,
Marina! Gênios!
- Mas isso não tem
o menor fundamento. Aposto que essa argumentação não
resiste nem a um debate com uma professora de catecismo para quinta série...
Mas eu não sou professora de catecismo de quinta série...
Flávio, pelo amor de Deus... Vamos ver o filme agora?
- Vamos.
A sala escura. A única
luz que os iluminava era aquela que vinha da televisão, do vídeo
que tinham alugado. Até que ela murmurou:
- “Deus é um círculo”...
- Deus é um círculo?
O que é isso, Marina?
- Ah, sei lá. Acho
que li em algum lugar...
- Deus é um círculo!
Essa é boa! Você tem cada uma!
.... |