...

 
Modéstia à parte

Você namora há dez anos. Vai se casar em novembro (não sei porquê, mas ultimamente todo mundo com quem converso vai “casar em novembro”). Está feliz, é claro. O noivo é um homem sério, seis anos mais velho do que você. Já estiveram apaixonados, mas isso foi há muito tempo. Agora estão... Diferentes. Mais calmos, com a cabeça no lugar. Pensando antes de fazer as coisas. Mas está tudo bem. Fazem planos juntos. Olham sempre na mesma direção. Vão construir uma casa, uma vida. O futuro parece uma larga avenida, bem asfaltada, reta e sem sobressaltos. Você sorri para si mesma, cantarolando baixinho. Está feliz. Pela primeira vez em muito tempo, sente o gosto honesto da estabilidade.

De repente, sem mais nem menos... Surge um cara. Outro cara. Mais novo. Só um pouco. Esse cara é... Estranho. Ele parece ter saído de lugar nenhum e pelo visto é para lá mesmo que vai voltar. Não é prático, nem ajuizado, não tem bens e nem parece interessado em amealhá-los. Elétrico, charmoso, inteligente e excêntrico... Meio sem pé nem cabeça, meio estabanado. Fútil, egocêntrico, divertido... Ele parece trazer no bolso uma aventura sempre prestes a acontecer... Pode te levar pra andar de patins nos anéis de Saturno ou para outra dimensão. Perto dele as estrelas parecem mais próximas, estão ao alcance da mão. Você poderia comê-las, se quisesse. Ele garante que já fez isso. “O gosto é doce e gelado”, diz rindo. E te beija da cabeça aos pés. Você, você que sempre foi uma tonta... Você se apaixona perdidamente por esse cara. 

Começam a se ver todo dia. Sem pressão alguma... Simplesmente acontece. Parece natural que queiram estar juntos. Aliás, de repente muitas coisas estranhas parecem naturais para você, como estar impulsiva, entusiasmada e meio tonta. Ah, esse cara! 

Esse cara... “Esse cara não dá futuro!”, é o que te dizem suas amigas. E você tem absoluta certeza disso. Claro, você nunca se enganou. Nem por um segundo. Porém deixa a coisa rolar assim mesmo. Por quê? Não sabe ao certo. Já não se importa em dar respostas. Só sabe que ultimamente se sente outra pessoa. Principalmente quando está com ele, com esse outro cara. Perto dele você ri como uma garotinha. E sente que pode ser boba, voluntariosa, espontânea e sexy... Tudo de uma vez. Pode ser desengonçada, falar na hora errada, se esquecer das coisas sérias e se concentrar só no que importa... Por isso você anda pela rua distraída, perdida em você mesma, os cabelos enfeitados com fiapos de sonhos.... As cores parecem mais intensas, os sons mais agradáveis. Seu coração está leve, como se carregasse uma flor de fogo prestes a desabrochar. O noivo... Bem, o noivo nota que você está um pouco estranha, mas depois de ponderar que “mulher é assim mesmo” por cerca dois segundos, baixa a cabeça e volta a trabalhar... Em breve, ele vai ter uma família para sustentar. Enquanto isso, você se entrega a todos os tipos de prazeres com o outro cara. 

Os jantares românticos na casa dele, por exemplo, sempre terminam em guerra de comida, os dois rindo como se ainda estivessem na escola. Depois vêem os banhos a dois que terminam em noites que não terminam, porque continuam na manhã seguinte... E cada dia é novo, limpo, luminoso, como se viesse envolvido numa folha prateada, embrulhado pra presente. Ah, esse cara! Pena que a festa tenha hora pra acabar; você se casa em novembro. Vai morar longe dele... Nunca mais vai vê-lo. Ainda bem! “Deus me livre ter amante! Um namoradinho ainda vai, mas amante, não! Não fica bem para uma mulher casada!”

Mas quem é esse cara, afinal de contas? Imprevisível, impetuoso, incoerente... Mas sempre interessante. Quem é esse cara afinal de contas, que parece ter saído de lugar nenhum? Esse cara... Bem, esse cara sou eu. 

....