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Crise do feminino

Confesso de saída que nunca tive dúvidas sobre minha masculinidade, sou heterossexual fundamentalista e militante. Aliás, penso inclusive que só nessa área o fundamentalismo é admissível, uma vez que ser corintiano (outra hipótese plausível) aplica-se somente aos integrantes da segunda maior torcida de futebol do país. Ou seja, infelizmente não dá pra 
generalizar. Com a heterossexualidade, não, diz respeito a toda humanidade, incluindo os que não são.

Não obstante as certezas possíveis e inabaláveis no assunto, fui pego de surpresa por uma crise inesperada, recentemente, ao deparar-me com a edição de outubro da revista Playboy. Parei na banca displicentemente e vi a atriz (?) norte-americana Pamela Anderson de biquininho cor-de-rosa, acocorada, segurando uma pistola de plástico. Quase entrei em estado de choque! Não exatamente pelo tamanho descomunal do par de mamas da moça, que lutava para se soltar do incômodo sutiã. Fiquei chocado, imóvel, preocupado se o jornaleiro estava notando meu estado catatônico, pois não conseguia reconhecer a presença de uma mulher na capa da revista masculina mais conhecida do planeta. 

Quanto mais observava a foto, mais aumentava a certeza de que aquela pessoa não era do sexo feminino. Estou ficando louco, pensei, tentando justificar a conclusão descabida. Se a capa da Playboy não tem uma mulher, terá o quê? Seria uma revolução editorial sem precedentes. 

Tudo em Pamela Anderson parece falso: os cabelos armados, o rosto esticado, o olhar e o sorriso inexpressivos, os peitos desproporcionais e descabidos, a barriga plana como uma tábua envernizada, a ausência de bunda, as pernas finíssimas e longilíneas, os pés enormes e ossudos... Meus Deus, colocaram um ET na capa da Playboy! 

Passado o choque inicial, veio a crise, pois com alguma dificuldade consegui raciocinar que aquele tipo de mulher é modelo de feminilidade em uma nação e está sendo empurrado garganta abaixo como pretenso modelo para o leitor brasileiro. Será que, então, eu estaria errado ao não ver a mínima graça, nenhum atrativo, a menor sombra de charme, de erotismo e sedução naquela mulher? Perdi alguns segundos contemplando aquela capa e não senti nada, não pensei nenhuma bobagem, não me sugeriu 
nada, senão um imenso vazio, apatia total.

Pamela Anderson parece uma caricatura de mulher, boneca inflável que acidentalmente tem vida. Uma mulher de laboratório para atender à demanda de certa fatia do mercado de erotismo. O pior é que o biquininho rosa e a pistola de plástico faziam a foto ficar completamente ridícula, ou seja, brochante. 

Bem, saí da banca aliviado. Tinha sido apenas uma brochada. Isso faz parte do jogo e é preciso ser muito macho pra admitir.

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