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Caretices 

Mesmo correndo o risco de ser considerado retrógrado e careta, sempre que vejo certos fenômenos de mídia conquistarem as mentes e os corações de jovens desavisados penso em como o tempo e nossa desmemória são cruéis. Vejamos algumas comparações:

Quem perderia tempo lendo Paulo Coelho se tivesse lido o velho e bom Carlos Castañeda e suas aventuras alucinantes e alucinógenas com o guru indígena Don Juan? 

Qual é a graça do Harry Potter diante do charme e da poesia dos Livros da Magia de Neil Gaiman, obra-prima dos quadrinhos?

Quando se ouve um desses pagodes siliconados, não dá vontade de correr para uma ilha deserta com a obra completa do Paulinho da Viola? Impossível acompanhar trinta segundos da série "Presença de Anita", ainda que seja delicioso ver Mel Lisboa desfilando de calcinha, se você leu Lolita, do Vladimir Nabokov. 

Por falar em silicone, que prazer tocar um seio real, irregular, tenso, que se acomoda entre os dedos com as sábias improbabilidades da natureza e do desejo!

E a lipoaspiração, que além de tirar a vida de clientes com menos sorte, esconde as sedutoras marcas de história da vida que tatuam o corpo e são parte imprescindível dele?

Por que algumas mulheres insistem em querer uma barriga igual à do Arnold Schwarzenegger?

Será que os macacos ensandecidos de Tim Burton terão o mesmo impacto sobre o imaginário que o causado por aqueles que sacanearam o Charlton Heston? Nada contra refilmagens e novas versões, seja do que for. Só lamento que os remakes sejam sempre inferiores ao original, barateando a criatividade e subestimando a sensibilidade e a inteligência do público. 

Pior que as recriações, às vezes, são as tentativas de inovação. Um filme metido a besta como as Bruxas de Blair, por exemplo, faz o Boris Karloff parecer personagem do Digimon. 

Entre a sensualidade de cais do porto virtual da Madonna e a de colegial que levou pau da Sandra Bullock, fico com as brincadeirinhas safadas e realistas da Cicciolina. 

O que dizer então da expressividade de boneco de museu de cera do Brad Pitt se comparada à de Robert De Niro, ou de Jean Reno, pra citar dois feiosos que felizmente ainda estão na ativa?

Vou parar com as comparações pra não me sentir mais velho do que sou realmente. Mas também não tenho culpa se já existiam o Bach, os Beatles, o Drummond, o Stanley Kubrick, o Vittorio Gassman, o Machado de Assis, o Bob Kane, e tantos outros, quando nasci.

Dizia o poeta inglês T. S. Eliot que o bom artista é aquele que cria sobre uma tradição, renovando-a. Isso pode valer para quem não é artista, mas gosta de consumir arte.

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