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O Brasil é rico
 

Tornou-se lugar-comum dizer que o Brasil é um país pobre, por suas supostas desigualdades. Não é verdade. Explico: logo depois de assumir o posto em Brasília, demos ao presidente um avião novo em folha, sofisticado e caro. Para fazer valer nosso presente, estamos pagando incontáveis viagens internacionais não só para o presidente e sua senhora, mas para comitivas solidárias. 

Patrocinamos as férias dos filhos do presidente com seus amiguinhos no Palácio do Planalto, diversão que foi amplamente divulgada pela Internet para que tivéssemos, por assim dizer, um retorno da felicidade que proporcionamos.

Quase distribuímos ingressos valiosos para show de música sertaneja a convidados seletos, não fora um contratempo administrativo.

Bancamos generosamente a troca dos carros de juízes do Superior Tribunal de Justiça, uma frota de Ômegas importados, top de linha, blindados, ao custo de aproximadamente meio bilhão de reais.

Aumentamos significativamente o número de funcionários do governo, contribuindo socialmente para a redução do desemprego, especialmente o desemprego nos quadros da militância partidária.

Até nos programas sociais de ajuda aos menos favorecidos, como o Bolsa Esmola, digo, Escola, estamos incluindo pessoas que não precisam do benefício, um exemplo inconteste de nossa bondade.

Concordamos passivamente com o aumento de impostos e de juros para que possamos oferecer maiores recursos ao governo. Pagamos mais por saúde, educação, transportes, moradia, energia elétrica, telefonia, embora os índices oficiais registrem deflação. Dinheiro não falta e estamos conscientes de que podemos contribuir para o crescimento econômico da nação.

Acompanhamos hoje a gigantesca e quase imensurável distribuição de dinheiro para parlamentares, assessores, secretárias, publicitários, parentes, amigos... saques vultuosos, na boca do caixa. Por que não oferecer a deputados de certos partidos um pequeno complemento salarial de trinta ou cinqüenta mil reais, não contabilizados, já que estão dando um duro danado para nos representar?

Doamos milhões de reais para igrejas que nos garantem a cura da alma e o sucesso material. Qualquer cidadão comum pode ser flagrado com milhares de dólares na cueca, sem explicação plausível, tamanha a fartura de moeda em circulação, nacional e estrangeira. Aliás, é muito comum no Brasil dar de presente a um amigo do peito um carro importado, em sinal de puro e desinteressado afeto.

A riqueza é tanta que emprestamos milhões de reais, através do Banco do Brasil, sem fiador, sem assinatura, no fio do bigode. As pessoas, inclusive, assinam contatos milionários sem ler, sem saber do que se trata, porque dinheiro aqui não é problema.

Por tudo isso, caro(a) (e)leitor(a), e por coisas que ainda não sabemos, não há fundamento em dizer que a pobreza é uma questão grave no Brasil. Somos tão ricos que - diria o genial Millôr - o dinheiro sai pelo ladrão.

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