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O Brasil é sério
 

Tornou-se lugar-comum dizer que o Brasil não é um país sério. Uma grande bobagem! Somos um país seriíssimo, talvez o mais sério do planeta. Os exemplos são contundentes e abundantes.

Aqui a justiça é tão justa que uma garota que planeja e participa do assassinato brutal dos próprios pais tem direito à liberdade, enquanto o processo não é julgado. E mais: pessoas que são investigadas por envolvimento em corrupção têm o direito de não responder às perguntas de quem as investiga e até de mentir, se preferirem. No Brasil, zelamos não só pela seriedade como pelos direitos individuais.

Além de sérios, somos criativos, e por isso desenvolvemos métodos originais para lidar com as diferenças sociais existentes no país, tais como linchar mendigos em praça pública, atear fogo em índios e travestis, promover chacinas em favelas, atropelar idosos etc. Por exemplo, se você é menor de idade, pega o carro dos pais e mata dois velhinhos que atravessam a rua na faixa de pedestres, cruzando o sinal vermelho em alta velocidade, basta assinar um termo de infração e voltar para casa, tranqüilamente. 

Nossa seriedade com assuntos públicos é tanta, que permitimos o financiamento de campanhas políticas com dinheiro não declarado, ou melhor, não contabilizado, isto é, à margem da legislação vigente, pois sabemos que as campanhas são caras, que os partidos e os candidatos são pobres, que existem muitas empresas desejosas de contribuir com o sistema político sem qualquer interesse que não o puro civismo, e que a melhor maneira de fazer com que o dinheiro fique limpo é, obviamente, lavando-o.

Como não temos condições de oferecer saúde e ensino públicos adequados, disponibilizamos instrução e planos de saúde privados a fim de garantir a todo cidadão o direito à educação e ao bem-estar. Não obstante, pagamos impostos caríssimos para que o funcionamento do Estado não seja prejudicado.

Exatamente por levar a iniciativa privada a sério, incentivamos a falência do sistema previdenciário para estimular o afluxo das contribuições aos bancos, que de sua parte exercem assim um valoroso serviço à cidadania.

Para garantir a solidez econômica do país, definimos que as empresas públicas podem e devem atender aos interesses privados, de modo que praticamente não haja distinção entre uma e outra esfera. Assim, é natural que uma agência de publicidade use dinheiro de bancos para financiar partidos do governo, ou então que preste serviços para empresas estatais em troca de financiamento de campanhas, ou de doações a parlamentares amigos. A sinergia administrativa é um dos índices de excelência de nossa gestão pública.

Prova internacional de nossa seriedade é o fato histórico de exportamos mão-de-obra qualificada para a Europa e os Estados Unidos. Quantos eletricistas, garçons, faxineiras, baby-sitters, pedreiros, porteiros, entregadores de pizza, acompanhantes, cozinheiros, brasileiros e brasileiras, não estão neste exato momento atuando como embaixadores informais de nossa competência e simpatia pelo mundo afora?

Quando vejo questionada a seriedade do Brasil, não consigo pensar noutra coisa senão que existe um complô dos pessimistas para desestabilizar as estruturas mais que consolidadas de nosso ilibado republicanismo democrático.
 

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